4. BRASIL 16.10.13

     4.1 A ALTERNATIVA CAMPOS
     4.2 EXECUTIVOS FICHA-SUJA
     4.3 ELES QUEREM VOLTAR
     4.4 O NOVO JOGO DO PODER
     4.5 "PSDB E PT J TIVERAM SUA CHANCE"


4.1 A ALTERNATIVA CAMPOS 
Reforado pela aliana com Marina, o governador de Pernambuco consolida sua candidatura  Presidncia e altera os rumos da campanha. Conhea seus planos, a estratgia eleitoral e os bastidores da articulao que levou a ex-ministra do Meio Ambiente ao PSB

SURGE UM CANDIDATO - Na quarta-feira 9, em sua residncia em Recife, Eduardo Campos assiste ao programa eleitoral do PSB com o filho Jos Henrique no colo. A pea publicitria, que foi exibida no dia seguinte, precisou ser refeita para incluir Marina Silva 

"Bota uma camisa, Z, para tirar um retrato. Curiosssimo e tmido, o pequeno Jos Henrique, usando camiseta vermelha e bermuda estampada xadrez, no desgruda do pai, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, nem um minuto sequer. Levanta do sof da sala, corre at o quarto e retorna esbaforido. O pai lhe entrega um DVD, que o garoto coloca para rodar no home teather. Vou antecipar para vocs como vai ser o novo programa do PSB, diz Campos com o filho no colo. Um sol forte despontava no horizonte da capital pernambucana, quando na quarta-feira 9 o mais badalado candidato  Presidncia do momento  desde que sacramentou h duas semanas a aliana com Marina Silva  abriu sua residncia para a reportagem de ISTO. Despojado, vestindo cala jeans e camisa social branca, Campos abandonou as gravatas Herms que costumava usar. J o relgio Cartier ele diz que foi presente dos funcionrios do gabinete. A nova imagem  fruto do novo momento poltico, e de quem olha para as eleies de 2014. Em quase quatro horas de conversa, o governador de Pernambuco falou abertamente sobre seu projeto poltico, detalhou parte da estratgia de campanha ao Planalto e contou os bastidores da articulao que levou a ex-senadora Marina Silva para o PSB, num surpreendente movimento que pegou o mundo poltico no contrap, a comear por seus aliados e, principalmente, adversrios.

Enquanto exibia o programa poltico do PSB, que s foi ao ar no dia seguinte, Campos contou que a nova pea publicitria do partido precisou ser refeita e reeditada. Cortamos o final para incluir o ato da aliana com a Marina em Braslia, justificou o candidato, antes de conferir a insero pela ltima vez, na presena de ISTO.

As alteraes de ltima hora demonstram que a aliana entre os dois foi uma operao espontnea e mesmo improvisada, ao contrrio do que se costuma acreditar num pas onde a crnica poltica dedica um culto anormal s teorias conspiratrias. A inteno de Marina foi comunicada a Eduardo Campos na sexta-feira 4, atravs de vrios amigos comuns. Eles relatam que, ao menos inicialmente, o anfitrio no deixou de manifestar uma imensa surpresa diante da possibilidade de hospedar uma aliada to vigorosa  com 28% de intenes de voto no ltimo DataFolha, contra 8% para ele prprio. Para Marina, interessada em desempenhar um papel ativo em 2014, o PSB surgiu como opo natural, pois sendo um partido com 60 anos de existncia no seria encarado como uma legenda de aluguel, a exemplo do PROS e do Solidariedade, criados s vsperas.

Agora, porm, Eduardo Campos tem conscincia de que a improvisao e a espontaneidade que marcaram a negociao para a aliana com Marina precisam ser deixadas para trs se quiserem obter xito eleitoral em 2014. Por isso, PSB e Rede criaram, na semana passada, um grupo de trabalho que j comeou a discutir estratgias de campanha. O primeiro desafio envolve uma situao eleitoral extica. Consiste em manter, como cabea de chapa, um candidato a presidente que exibe, na melhor das hipteses, um tero das intenes de voto da possvel candidata a vice. A situao  delicada para as duas partes. Mesmo pressionada por seus militantes, que sonham com uma mudana de posio entre os dois, Marina sabe que no pode fazer nenhum gesto que possa ser interpretado como uma traio a Eduardo Campos. Ela no est em sua casa poltica. Ingressou no PSB a pedido, e no por convite, filiando-se a uma sigla que o governador herdou de seu av, o lendrio Miguel Arraes, e lidera com energia e controle. Candidato ao Planalto desde 2010, pelo menos, Eduardo Campos trouxe este projeto para 2014, quando poderia, se quisesse, esperar por 2018, quando teria a promessa de apoio de Lula para concorrer  sucesso de Dilma. Em funo de tantas circunstncias somadas, o sonho dos aliados de Marina de conseguir a cabea de chapa equivalia, na semana passada, a uma utopia do tamanho do Amazonas. Com o objetivo de desfazer previsveis rudos surgidos nessa convivncia, Marina Silva passou a semana ao telefone, esclarecendo com o parceiro qualquer confuso que pudesse sugerir um avano de sinal. Ela chegou a me enviar o udio da entrevista a um jornal para provar que suas declaraes saram distorcidas, disse Campos  ISTO.

No esforo para encaixar o discurso estridente de Marina na campanha de Eduardo, a ideia  imitar o comportamento de Lula que viabilizou Dilma em 2010. No faltaro pretextos para exibir os dois, lado a lado, sempre que possvel. Para evitar qualquer artificialismo, eles devero alimentar declaraes polticas que se harmonizam e complementam, evitando temas que possam afast-los. A tentativa de garantir a transferncia de milhes de votos potenciais de Marina envolve uma operao cuidadosa. As pesquisas mostram que, deixada por sua prpria conta, parte dos eleitores de Marina Silva tem uma tendncia natural para escolher Dilma Rousseff como segunda opo. O plano do PSB  deixar claro, atravs de um trabalho permanente de imagem, que a prpria Marina faria outra escolha e, assim, convenc-los a mudar de rumo. Lembrando que a nova aliada recebeu 19,6 milhes de votos em 2010, Eduardo Campos aposta que no faltaro cidados que, cansados da polarizao PT x PSDB, podero votar em seu nome. H um novo cenrio eleitoral menos pulverizado e ainda mais polarizado. Ns podemos ser a alternativa, afirma, referindo-se ao mundo poltico descortinado pelos protestos de junho que, no por coincidncia, ajudaram a engordar as intenes de voto de sua parceira.

A estratgia do partido inclui dar exposio no apenas  dupla Eduardo-Marina, mas a outros parceiros, como Luiza Erundina (SP), Pedro Simon (RS) e Jarbas Vasconcelos, a serem apresentados como polticos que simbolizam a tica na poltica. A campanha vai buscar ainda o apoio de personalidades e setores da sociedade civil. Podemos expressar esses valores que esto sendo reclamados na vida pblica em torno de ideais que vo juntar as pessoas, diz Campos. Em termos prticos, a chapa PSB-Rede investir pesado nas mdias sociais para compensar o menor tempo de tev e rdio. Pretende-se, a, apresentar contradies de uma sociedade que avanou em termos de democracia, estabilidade econmica e incluso social, mas que corre o risco de perder essas conquistas. Numa postura que diferencia Eduardo Campos de Marina, a deciso  que no haver citaes a Lula, tampouco ataques diretos  presidenta Dilma. Ao menos na fase inicial da campanha. A julgar pelo mpeto eleitoral da nova dupla que abalou a poltica nos ltimos dias, esse armistcio no deve durar muito.  


4.2 EXECUTIVOS FICHA-SUJA
Diretores da CPTM e do Metr de So Paulo foram multados pelo Tribunal de Contas por condutas lesivas ao errio. Mesmo assim, muitos deles permanecem no governo tucano
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

AUTUADO - Ex-presidente do Metr paulista e da CPTM, Srgio Avelleda tambm foi condenado pelo Tribunal de Contas 

O PSDB paulista alega que no conseguiu identificar, por mais de uma dcada, o conluio das empresas de transporte sobre trilhos destinado a superfaturar obras durante as sucessivas gestes do partido. Documentos obtidos por ISTO mostram, no entanto, que h anos o Tribunal de Contas do Estado de So Paulo no s vem detectando os rastros dessa prtica criminosa como aplicou multas em servidores pblicos responsabilizados por lesar o errio. Pelo menos, 15 contratos firmados entre as empresas do cartel com as estatais Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e o Metr paulista foram julgados irregulares pelo TCE-SP. A maioria por direcionamentos nas licitaes, que evitaram a competitividade do certame, ou aditamentos prejudiciais aos cofres pblicos. Em quatro deles chama a ateno o fato de o Tribunal de Contas, rgo auxiliar do Legislativo que fiscaliza o governo estadual, ter condenado dirigentes das empresas pblicas a pagar multas pessoais que, somadas, chegam a R$ 145,2 mil. Entre os oito autuados esto Srgio Henrique Passos Avelleda, ex-presidente do Metr paulista e da CPTM, e Mrio Fioratti Filho, atual diretor de operaes do Metr.

ELE AINDA EST L - Mrio Fioratti Filho, atual diretor de operaes do Metr, foi condenado a pagar multa por firmar contratos prejudiciais aos cofres pblicos 

A multa pessoal ao servidor pblico  uma sano gravssima, equivale  ficha suja, explica Antonio Roque Citadini, presidente do TCE-SP. Alm do valor que deve ser desembolsado pelo multado, a multa no impede tambm que outros procedimentos sejam realizados para que o responsvel repare os cofres pblicos. Do ponto de vista da gesto administrativa, para Roque Citadini, algum que tenha sido penalizado com esse tipo de sano (a multa) no deve continuar a exercer uma funo pblica. Mas muitos deles permanecem.  o caso de Mrio Fioratti Filho, condenado  multa pelo TCE por um contrato licitado em 2008. Hoje, ele  diretor de operaes do Metr paulista.

Outros personagens que deram aval a contratos julgados irregulares pelo tribunal tambm se mantm na administrao tucana em So Paulo. Dcio Tambelli, que chegou a ser multado na poca em que ra dirigente do Metr, ocupa hoje o cargo de coordenador da Comisso de Monitoramento das Concesses e Permisses da Secretaria dos Transportes Metropolitanos. Ele subscreveu pelo menos trs contratos contendo irregularidades. J o atual diretor de operao e manuteno da CPTM, Jos Luiz Lavorente, assinou cinco. Dcio Tambelli e Lavorente, segundo um ex-dirigente da multinacional Siemens, participaram do esquema de pagamento de propina a funcionrios pblicos e polticos tucanos em troca da obteno de contratos superfaturados com as estatais paulistas de transporte sobre trilhos. Na quinta-feira 10, o presidente do conglomerado alemo no Brasil, Ricardo Stark, reconheceu o desvio de recursos pblicos por integrantes do cartel. Em sesso na Cmara Municipal da capital paulista, disse at que a companhia aceita devolver o dinheiro surrupiado do Estado, aps os clculos.  


4.3 ELES QUEREM VOLTAR
Ex-primeira-dama e polticos envolvidos em escndalos recentes da histria do Pas tentam regressar  vida pblica abrigados por legendas de pouca expresso
Josie Jeronimo

Eles deixaram a vida pblica pela porta dos fundos e muitos dos eleitores que votaro pela primeira vez em 2014 vo reconhec-los como fotos envelhecidas de livros que narram captulos lamentveis da histria do Pas. Mesmo assim, animados por pesquisas pr-eleitorais que revelam a existncia de cidados dispostos a votar em candidatos de histrico reprovvel, cinco pivs de escndalos polticos iniciaram o aquecimento para pedir uma nova chance aos eleitores. So eles: Jos Roberto Arruda, Luiz Estevo, Joaquim Roriz, Rosane Collor e Denise Abreu. Nos ltimos dias, filiaram-se a pequenas legendas que pouco se importam com o seu passado desabonador.

No Distrito Federal, o PR aposta no reincidente Arruda para a Cmara Legislativa ou Federal. O ex-governador do DF, que j havia renunciado em 2001 em meio ao caso da violao do painel do Senado, voltou a se envolver num rumoroso escndalo nove anos depois. Flagrado recebendo propina, Arruda foi preso sob a acusao de integrar esquema de corrupo conhecido como o mensalo do DEM. Agora, virou a esperana do PR para puxar votos na capital.

A exemplo do PR, que abriu suas portas para polticos flagrados em prticas nada republicanas, o PRTB mostra que de renovador s tem o nome. A sigla filiou os ex-senadores Joaquim Roriz e Luiz Estevo. Roriz lidera as pesquisas para o Palcio do Buriti, sede administrativa do governo do DF, e Estevo, dono do grupo empresarial OK, pretende comandar as eleies para a Cmara e Assembleia Legislativa do Distrito Federal. O meu foco  eleio proporcional. Quero ter participao ativa. Pesquisa mostrou que eu tenho 260 mil votos, mas pretendo transferir meus votos para o partido, afirmou Estevo, que teve o mandato de senador cassado em 2000 acusado de envolvimento no escndalo dos desvios de verbas do TRT de So Paulo.

Em 2010, Roriz j havia arriscado concorrer ao governo do DF, mas, como a Lei da Ficha Limpa barrava candidatos que tivessem renunciado para fugir da cassao, a exemplo dele em 2007, preferiu investir em sua mulher, Weslian Roriz (PSC). A figura da dona de casa desinformada sobre o terreno selvagem da poltica virou chacota em Braslia. Nos debates entre candidatos, ela respondia a todas as questes afirmando que os problemas da administrao pblica seriam resolvidos com amor. Resultado: a ex-primeira-dama do DF sofreu uma derrota fragorosa e avisou que jamais concorreria novamente a um cargo pblico. 

 Destino diferente escolheu outra ex-primeira-dama. Acusada de desviar verbas da Legio Brasileira de Assistncia (LBA) em favor de seus familiares, quando o seu ex-marido Fernando Collor presidia o Pas, Rosane resolveu voltar  vida pblica. Na ltima semana, filiou-se ao PEN para concorrer a deputada federal por Alagoas. Ainda loira e com a mesma fisionomia marcante do incio da dcada de 1990, Rosane usa o sobrenome de solteira Malta e hoje frequenta cultos evanglicos. Ser esse, inclusive, seu pblico-alvo, o eleitorado evanglico. Caso seja eleita, ela e o senador e ex-presidente Fernando Collor (PTB-AL), que ainda travam uma disputa judicial no processo de separao, podem voltar a se cruzar nos corredores do Congresso.

A filiao de Rosane constrangeu o presidente do PEN, Adilson Barroso. Ele quer ganhar muitos votos e fazer crescer a bancada, mas teme pela imagem do partido. Para explicar a adeso de Rosane, jogou a responsabilidade para o ex-presidente regional da legenda, o deputado Joo Caldas. Rosane  de Alagoas, l o partido at recentemente estava na mo de Joo Caldas, explicou. Na ltima semana, Caldas filiou-se ao Solidariedade de Paulinho da Fora. Segundo comenta-se no Estado, Rosane por pouco no seguiu seu padrinho poltico. Teria desistido na ltima hora temendo no conseguir espao para se candidatar na nova legenda. Rosane foi procurada, mas no atendeu os telefonemas at a publicao desta edio. Alm da ex-primeira-dama, o PEN tambm acolheu a ex-diretora da Agncia Nacional de Aviao Civil (Anac) Denise Abreu. Ela perdeu o cargo em 2007, acusada de favorecer companhias areas, em detrimento dos passageiros. Neste caso, porm, Barroso no se importou com o histrico da filiada. Com a Denise Abreu est tudo certo. Ela pode ser candidata, porque est com a ficha limpa, justificou o presidente do PEN, num caso tpico de memria seletiva.


4.4 O NOVO JOGO DO PODER
A consolidao da candidatura de Eduardo Campos (PSB) fortalece a oposio, pe fim  polarizao entre petistas e tucanos e acende o sinal de alerta no governo
Izabelle Torres

Um dos mandamentos da poltica  se comportar como vencedor at que as urnas provem o contrrio. E  exatamente isso que os partidos esto fazendo diante do anncio da aliana entre o PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e a ex-senadora Marina Silva. Ainda atordoados, polticos de diferentes legendas se negam a admitir publicamente possveis abalos nos projetos que vinham sendo desenhados. Na cpula dos partidos, entretanto, o cenrio  menos otimista. Legendas e seus candidatos se articulam para diminuir os prejuzos e agregar o mximo de aliados no menor espao de tempo. Quem ser o mais beneficiado ou prejudicado a partir do novo jogo eleitoral ainda no se sabe ao certo. S o tempo ir dizer. Mas trs efeitos so inegveis. O primeiro ser a sada do PT e PSDB do piloto automtico e da insistente estratgia de polarizar o debate, muitas vezes restrito ao legado dos seus ex-presidentes. O outro  o aumento do preo eleitoral de diferentes legendas, que podem negociar alianas com o fisiologismo de sempre, mas com a certeza de que so coadjuvantes importantes para definir o enredo das eleies presidenciais. O terceiro  que esse movimento coloca novamente a oposio ao governo federal como protagonista do jogo eleitoral, algo que no ocorria desde 2002, quando Lula foi eleito. Na ocasio, alm de Lula, Ciro Gomes, ento aspirante  Presidncia pelo PPS, tambm representando a oposio a FHC, reuniu possibilidades reais de vencer o pleito. Agora, mais uma vez, duas candidaturas com condies de triunfar nas urnas se colocam em trincheira oposta  da situao: a de Acio (PSDB) e a de Campos-Marina (PSB), cabendo ao governo  agora, o alvo preferencial de todos os postulantes ao Planalto, depois de passar 12 anos no poder , o papel de defender as suas realizaes.

Nesse novo desenho, as legendas que orbitam o governo Dilma, a exemplo do PDT, do PTB e do PP, renegociam  a preos mais altos  sua permanncia na aliana antes considerada natural. No faltam ameaas. O PDT de Carlos Lupi, que comanda o Ministrio do Trabalho, agora manda recados de que h parlamentares do seu partido interessados em se retirar da base. Do outro lado, o PTB avisa que ainda  aliado, mas cobra o comando de um ministrio. J o PP, presidido pelo senador Ciro Nogueira (PI), diz que est dividido e flerta firmemente com os tucanos, entrando nos governos dos Estados comandados pelo PSDB. Se com o PP j h um namoro, a relao do PSDB com o PSB ter de mudar. Segundo o senador Acio Neves (MG), o acordo que ele havia fechado com Campos, de os partidos PSDB e PSB se apoiarem mutuamente em pelo menos dez Estados, dever ser revisto. Ser apenas um exerccio de reformulao. Para ns, no muda muito, porque o PSB sempre foi governo. No perdemos quadros, diz o senador.

O cenrio tambm ser alterado em outros Estados (leia quadro abaixo). No Maranho, o rumo que o PSB tomar pode representar o fim da oligarquia Sarney, que est no poder h quase 60 anos. Flvio Dino (PCdoB) tenta atrair os socialistas para sua campanha, o que representaria a formao de um amplo grupo anti-Sarney. O problema  que Marina havia se comprometido com a deputada estadual Eliziane Gama, pr-candidata do PPS, adversria de Dino. Na semana passada, Marina se reuniu com a deputada e reafirmou seu apoio, desconsiderando as conversas que o agora aliado Eduardo Campos vinha mantendo com o candidato do PCdoB. Com a oposio ao atual governo dividida, aumentam as chances de crescimento de um candidato apoiado pela governadora Roseana Sarney (PMDB). Em So Paulo, tudo caminhava para que Eduardo Campos indicasse o vice de Geraldo Alckmin (PSDB) na disputa pela reeleio. Agora, Marina defende que o seu novo partido lance o deputado federal Walter Feldman, que  ex-tucano e seu aliado. Entre perdedores e ganhadores, uma das poucas certezas que se tem at agora  que o desenho poltico mudou e exigir muito mais habilidade dos candidatos e dos partidos. Sobreviver nesse novo cenrio depende da capacidade de atrair aliados e neutralizar os adversrios, que podem estar bem ao lado. 


4.5 "PSDB E PT J TIVERAM SUA CHANCE"
Candidato do PSB ao Planalto, Eduardo Campos recebeu a reportagem de ISTO em sua residncia, situada num bairro da zona rural de Recife, onde vive com os quatro filhos. Durante quatro horas de entrevista, o socialista falou sobre seus projetos
Claudio Dantas Sequeira e Adriano Machado (fotos) - enviados especiais a Recife

No quero ser a contestao da contestao, quero ser o caminho para melhorar a vida das pessoas

 s 10h14, da quarta-feira 9, a reportagem de ISTO chegou  residncia do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, para uma entrevista exclusiva. Desde que decidiu reformar o Palcio das Princesas, sede do governo, Campos se divide entre o gabinete provisrio, instalado num centro de convenes, e sua casa  que, na verdade, pertence  famlia de sua mulher, Renata, h 40 anos.  l que ele vive com os quatro filhos e os sogros. Localizada num bairro da zona rural de Recife, a residncia  decorada por uma grande variedade de obras de artesanato regional. A preferida de Campos  uma imagem de So Francisco em tamanho natural. A poltica brasileira tem que entrar na era do Papa Francisco, diz o candidato do PSB  Presidncia da Repblica. E no adianta quererem me colocar contra a Marina, brinca, referindo-se  nova aliada, que  evanglica fervorosa. A primeira-dama d boas-vindas da varanda, em companhia da filha Maria Eduarda, de 21 anos. Ela exibe a gravidez de Miguel, o quinto filho do casal, que chegar ao mundo em fevereiro. Eduardo Campos despacha com um de seus secretrios na mesa da sala, e o pequeno Jos Henrique, de 8 anos, corre de um lado a outro com o smartphone do pai. Os outros dois filhos, Joo (19) e Pedro (17), estavam fora, estudando. Tem poltico que gosta de criar bois. Outros preferem cavalos. Eu gosto de criar gente. 

ISTO  Por que o sr. acredita que pode ser um bom presidente?
 Eduardo Campos  Porque somos capazes de mudar a qualidade da poltica no Pas. A poltica se degradou. Vivemos uma encruzilhada. No podemos colocar em risco o que acumulamos nas ltimas trs dcadas, especialmente em termos de democracia, estabilidade econmica e incluso social. Quero resgatar o bom debate, a utopia, a leveza e o respeito da sociedade. Representamos milhes de brasileiros que acreditam em democracia, que  possvel um padro sustentvel de desenvolvimento econmico, que  preciso aumentar a participao da sociedade na governana pblica. Minha aliana com Marina  a primeira resposta  crise de representatividade que o Pas est vivendo. O PSDB e o PT j tiveram sua chance de liderar o processo poltico. Agora  a nossa vez.

ISTO  O sr. acredita mesmo em possibilidade de retrocesso nas conquistas sociais?
 Campos  Enquanto a nova agenda for negligenciada, sim. As pessoas no tm acesso a servios pblicos de qualidade. Quem passa quatro horas num nibus, quem espera oito meses para fazer um exame, com risco at de perder a vida pela demora no atendimento, quer mudana. As respostas para essas questes no sero dadas com velhas prticas polticas.

ISTO  O que so as velhas prticas?
 Campos  Achar que basta juntar uns partidos para ter tempo de TV, contratar um bom marqueteiro e depois contar os parlamentares, distribuir ministrios entre partidos, sem discutir contedo de nada. O que est posto na sociedade? Quer ter uma telefonia decente, transporte pblico de qualidade, energia sustentvel para iniciarmos um novo ciclo de crescimento. Quem entendeu o que aconteceu nas ruas em junho entende a aliana que estamos fazendo agora e a pauta que estamos colocando.

ISTO  Essas questes so antigas e ningum mudou. 
 Campos  So questes que esto postas h duas dcadas, ao menos.  o que ocorre, por exemplo, com as reformas poltica e tributria. O presidente Lula tentou fazer. S que poltico pensa no imediato e, se aquilo vai prejudic-lo, ele no apoia. A sada  propor reformas escalonadas, com previso de entrar em vigor em oito, 12 ou 16 anos. Na reforma poltica, por exemplo, poderamos terminar, de sada, com a coligao proporcional, com a clusula de barreira e a coincidncia de mandatos. Isso j d uma primeira arrumada.

ISTO  Se Lula no fez as reformas com a popularidade e a base de apoio que tinha, por que o sr. acha que conseguir?
 Campos  Porque o Brasil que sair das urnas em 2014 ser outro. Foi por isso que alguns setores tentaram reduzir as chances de debate, polarizando a disputa. Em 2014 teremos uma eleio de posturas. Precisamos usar mais mecanismos de democracia direta, usar o potencial de 108 milhes de brasileiros com smartphones ligados  internet. Os governos precisam ser digitais. Com isso, d para governar com uma base menor, mas que tenha qualidade.

ISTO  No  um sonho governar com uma base menor?
 Campos   preciso testar. No d para ficar alimentando um ciclo que no est sendo bom para a poltica brasileira. Estamos h dois anos lutando contra essa inflao renitente, empurrando para cima da meta prudencial. Tem muita gente que subiu degraus, deu entrada na casa prpria, comprou mquina de lavar, televiso de tela plana, assumiu vrios compromissos financeiros. Se a economia no melhorar, essas pessoas podem ser obrigadas a descer esses degraus.

ISTO  E o que o sr. far para melhorar a economia?
 Campos  A tarefa de conter a inflao no  s taxa de juros.  preciso encarar a economia como voc enfrenta outros problemas. No caso da segurana pblica, o que voc faz? No  s colocar polcia na rua, tem que ter escola, assistncia social, uma Justia mais gil, combater a impunidade. Na economia,  fundamental compatibilizar a poltica fiscal com a monetria, e passar segurana aos agentes econmicos.

ISTO  Como passar essa segurana? Qual  o seu plano econmico? 
 Campos  No quero antecipar um debate que estou comeando. Mas o Pas precisa de um rumo estratgico, como o que Lula fez na Carta aos Brasileiros, em 2002. A eleio dele gerou na ocasio mais ansiedade no mercado, mais sobressaltos, que qualquer outra crise, levando o dlar na casa dos R$ 4. H hoje uma crise de confiana que precisa ser neutralizada. Tem que fazer o dever de casa, alavancar os investimentos, combater a corrupo, implementar uma gesto pblica mais eficiente, baseada na transparncia, no controle social e na meritocracia, e no no apadrinhamento. Eu fiz isso em Pernambuco. Todos concordam que  preciso reduzir o nmero de ministrios.  uma questo simblica.

ISTO  O sr. vai se apresentar como uma terceira via?
 Campos  No  uma terceira via, mas  a via. No gosto do clich de terceira, porque parece que h uma primeira e uma segunda. No quero ser a contestao da contestao, quero ser o caminho para melhorar a vida das pessoas.

ISTO  Apesar do desempenho como governador, o candidato Eduardo Campos ainda  desconhecido dos brasileiros. Como pretende mudar isso?
 Campos   verdade que o Brasil ainda no me conhece. Mas no fiz at agora nenhum esforo sistemtico para mudar isso. Recentemente, temos falado na TV, mas apenas dez minutos a cada seis meses.

ISTO  E como virar o jogo?
 Campos  Vamos andar juntos pelo Brasil, eu e Marina. Vamos ter o apoio desse maravilhoso mundo da internet, participar de fruns e atividades Pas afora. Os espaos vo surgindo naturalmente,  um processo em construo. No pode ser um processo ansioso, mas tranquilo, como estamos. Quem no est tranquilo so os outros!

ISTO  Qual  a estratgia de sua campanha?
 Campos  Vamos correr o Pas. Estamos fechando uma agenda de debates e atividades, de agitao de ideias e participao em eventos pblicos. Nos prximos dias j vamos comear a aparecer juntos. Haver tambm atividades internas direcionadas  militncia do PSB e da Rede, que devem estar coesas. Queremos o apoio de personalidades e de diversos setores da sociedade civil. Mostrar que temos um campo que inclui outras lideranas polticas, como Luiza Erundina, Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos. A campanha ser a expresso poltica do desejo de mudanas que alimenta protestos e manifestaes Pas afora. Podemos expressar esses valores que esto sendo reclamados na vida pblica em torno de ideais que vo juntar as pessoas.

ISTO  E os palanques regionais? Vocs vo cobrar fidelidade e expulsar o PT das coligaes?
 Campos  No vamos expulsar ningum. Sai quem quiser. Os Estados esto livres para fazer os arranjos necessrios, desde que garantam o palanque para nossa candidatura.
  
ISTO  Mas a Dilma tambm vai querer o palanque. Vocs vo dividir?
 Campos  Pode ser, no vejo problema.

ISTO  A Marina vai ajudar a projetar sua imagem?
 Campos  Acho que a aliana vai ajudar a difundir ideias que so novas, simples, mas de grande impacto e com grande sinergia com as pessoas que no so candidatas e que no so partidrias. Pessoas que militam por um Brasil melhor. No podemos ser encarados como ofensa, s por oferecer um caminho alternativo. 


